Hanoi, Vietname – ou se gosta ou de odeia… nós AMAMOS!

O dia começou bem cedo uma vez que queríamos explorar todos os seus pontos mais turísticos: o mausoléu de Ho Chi Mihn, o “One Pillar Pagoda”, a Imperial Citadela, o Templo da Literatura e a prisão de Hao Lo… a “lista” nem era assim tão longa e aparentemente os locais nem se encontravam assim tão distantes uns dos outros por isso, com exceção da primeira “etapa” do dia a cerca de dois quilómetros do hotel optamos por percorrer a cidade a pé.

Para o percurso inicial apanhamos um táxi.

Em Hanoi existem inúmeras “companhias” de táxis, mais e menos fiáveis, mais e menos “legais”, todas com obrigatoriedade de negociação prévia do preço ao destino! Isso do taxis terem taxímetros é um mero adereço, juntamente com os budas e os tapetes de tablier…

Procuramos os que nos tinham aconselhado, “os verdes” e negociamos os 60.000 dongs que nos pediram inicialmente de forma a apenas pagar 40.000, começando a perder noção de que estávamos a regatear para pagar um 1,5 euros em vez de 2 euros!

Lançámo-nos então pelo meio daquele enxame de motas… o taxista quebrou naquele pequeno percurso mais regras de transito do que aquelas que todos nós, europeus alguma vez quebramos em todas as nossas “carreiras” de condutores, mas chegamos vivos ao destino!

O mausoléu de Ho Chi Mihn onde se encontra embalsamado o ex-primeiro-ministro do país está situado no centro da Praça Ba Ðình, o local onde o próprio Ho leu a Declaração da Independência do país. Apercebemo-nos que estávamos perante um lugar solene e cerimonial em que os guardas impunham o silêncio e um rigoroso dress code para quem pretendia visitar o seu interior.

A extensa fila (estamos a falar de quase duas horas de espera…) desanimou-nos a ver “ao vivo” o lendário e tão querido líder vietnamita mas pudemos sentir pela massiva presença de nacionais que aí se deslocam em sua homenagem e pelo slogan lá presente “NƯỚC CỘNG HÒA XÃ HỘI CHỦ NGHĨA VIỆT NAM MUÔN NĂM”, cujo significado é “República Socialista do Vietname para sempre”, que o seu legado se encontra bem enraizado e respeitado por todos.

Muito perto e de visita obrigatória estava o “One Pillar Pagoda” para onde a seguir nos dirigimos. Trata-se de um pequeno e curioso templo budista, único no mundo por assentar, como o nome indica, em apenas um pilar com uma estrutura inspirada na flor de Lotus.

Voltámos ás movimentadas ruas da capital por onde nos fomos deliciando mais uma vez com o seu movimento descoordenado, com as manobras inexplicáveis em cada canto, com a descontração com que se fala ao telemóvel enquanto se conduz uma mota ou se transporta na mesma várias bilhas de gás num equilíbrio assustadoramente precário!

Uma visita descontraída pelos seus jardins pela Imperial Citadela “Thang Long”, uma fortaleza muralhada com um palácio no seu interior que foi idealizada como uma cópia da cidade proibida de Pequim, permitiu-nos estar em contacto com o povo local… vários grupos de jovens, recém formados pousavam com os seus trajes de gala e diplomas na mão para as fotos na fachada principal da fortaleza e pelo passeavam seu interior.

Seguia-se, no plano delineado, o Templo da Literatura dedicado a Confúcio e que chegou a albergar a primeira universidade do Vietname.

A primeira sensação que tivemos quando atravessamos os seus portões é que de repente se tinha entrado num outro mundo! Situado no meio da confusão que impera por toda a cidade, a verdade é que lá dentro o barulho ficou para trás. O alívio é imediato. Mesmo com a enorme quantidade de turistas lá dentro, o local consegue ser agradável e silencioso. Há espaço para todos e é possível encontrar cantinhos sossegados para relaxar e assim o fizemos, até porque o cansaço e calor começavam a apertar.

Ainda antes de almoço e apesar de já estar a ficar na hora deste decidimos ir visitar o ultimo “ponto” do dia, o museu/ prisão de Hòa Lo.

O percurso a fazer era agora maior e as folhas retiradas do google maps apenas nos mostravam alguns nomes das ruas em caracteres vietnamita e as ruas, na sua maioria, nem sequer os nomes têm escritos… também não tínhamos GPS por falta de internet e a verdade é que já estamos mal habituados com esta tecnologia que tanto nos facilita a vida mas que nos retira ou pelo menos “destreina” o nosso sentido de orientação.

Resultado: perdidos em Hanoi!

Não sabemos ainda hoje por onde andamos, só que percorremos ruas onde não se via um único turista, atravessamos becos onde não cabiam carros e só os gatos esgravatavam no lixo, passamos em mercados tão autênticos que pareciam irreais e que até nos fez questionar se estaríamos bem ali…mas estávamos!

Estávamos precisamente onde queríamos estar, ignorados por todos aqueles que viviam o seu quotidiano como se ali não estivéssemos… estávamos no meio do país “real” e só o cansaço e a desorientação que nos fazia andar “em círculos” nos fazia querer dali sair… Perder-nos acabou mesmo por ser o melhor que nos podia ter acontecido nesse dia!

Procuramos um estabelecimento em que alguém que falasse inglês para, pelos menos, nos localizar no mapa…a zona não era de restaurantes, muito menos de hotéis pelo que nos contentamos com uma misto de hostel com guesthouse onde a custo nos perceberam e deram algumas indicações que nos levaram no caminho certo e assim lá chegamos à prisão construída pelos franceses – também conhecida como Hanoi Hilton, uma alusão à cadeia mundial de hotéis de luxo pelo facto de ter recebido alguns famosos ao longo de sua existência. No seu interior pudemos visitar as celas ainda intactas onde os presos – homens e mulheres – eram despejados em condições abaixo das mínimas aceitáveis, solitárias, fotos e objetos, além de uma guilhotina, usada para matar alguns revolucionários do país, que lutaram arduamente pela independência.

Mas decididamente era na rua, melhor ainda, nas ruas do “Old Quarter” que nos encantávamos com esta cidade!

Cada rua, das suas 36, um negócio diferente, aqui sapatos, ali electrodomésticos, ao virar da esquina especiarias variadas… Tudo ao monte numa confusão de cores e de cheiros imprevisíveis!!! Sempre com uma mota ou bicicleta a passar por onde pensávamos impossível… Era por ali que queríamos estar, era ali que queríamos comer, era ali que nos sentíamos no Vietname.

Por isso e já bem alem da hora de almoço decidimos procurar um “restaurante” que tinha lido num livro de um guia turístico habituado a estas bandas e que o recomendava como aquele onde se podia saborear o melhor “Bún Chà” do universo…mais precisamente o “Bún Chà 34” na rua Hang Than.

Estamos a falar de uma comida típica de Hanoi, que a par do “Pho Bó”, outra comida típica mas que podemos encontrar por todo o país, tínhamos que experimentar…Tem por base o “nuoc mâm”, um caldo agridoce de molho de peixe, alho, lima e gengibre ao que se juntam fatias finas de rabanete, bacon grelhado e uns pequenos hambúrgueres de porco ligeiramente adocicados, grelhados no carvão, tudo metido numa tigela onde a carne fica a boiar. Ao lado, uma generosa porção de noodles, uma branca massa de arroz em fios muito finos, e um cesto de folhas de salada, alface, hortelã, manjericão, coentros, cebolinho e outras que não identificamos, que pareciam acabadinhas de sair da terra, constituem o acompanhamento da refeição. Junta-se ainda um pequeno pires com uma lima cortada a meio, alho fresco picado, pimenta e malaguetas cortadas ás rodelas para temperar a gosto…Vieram-nos ainda trazer depois uns enchidos que pressupomos também fazer parte da refeição e que devido ao forte e estranho sabor acabamos por não comer. Viemos a apurar tratar-se de caranguejo…estranha combinação!

Mas, ainda mais estranho era o “restaurante”… Seguindo as indicações que tinha trazido comigo para o conseguirmos encontrar, passamos por baixo da linha-férrea e ao lado da cisterna francesa e pouco mais à frente, já na Hang Than lá avistamos o 34…e como o descrever?

Se calhar já fazem uma ideia pelo facto de já me ter a ele referido mais que uma vez como “restaurante” entre aspas…a primeira impressão é que estamos a entrar na garagem de alguém: chão em tijoleira branca, um portão de correr em alumínio todo corrido para o lado, um tolde na fachada com as letras “bún chà 34”, mais nada!

Uma senhora sentada à face da rua, vestida de pijama, vigiava o grelhador e a separava, à mão, as folhas de salada para um alguidar à sua frente ao mesmo tempo que moldava rolos de noodles para outro alguidar.

Atrás de si, várias mesas em inox com um cesto do lixo ao lado e uns pequenos bancos em plástico azuis completavam a decoração do que sugeria ser o “salão de comer”. As mesas são compridas e por isso partilhadas pelos locais que por ali faziam a sua refeição. Escolhemos uma mais pequena, num canto, para estarmos mais à vontade… Mesmo ao nosso lado, uma improvisada abertura na parede dava acesso a um estreito, sujo e escuro corredor onde era preparada a comida e lavada a louça. Felizmente só reparamos nele já no final da refeição! Nas “traseiras” podíamos ver através de uma abertura em formato de porta um género de armazém cheio de sacos vazios e bancos de plástico azuis amontoados, prontos a sentar mais clientela!

Não falavam inglês, não tinham lista nem ementa visível em lado nenhum pelo que nos limitamos a pronunciar as palavras “Bún Chà” e com gestos dando a entender que era para ambos, apontando para uma garrafa de água da mesa ao lado para pedir a bebida…pouco depois, ainda estávamos nós um pouco anestesiados pelo lugar e a ponderar, secretamente, se devíamos avançar com a intenção de ali comer contra todas as indicações que nos tinham sido dadas na consulta do viajante, já estava à nossa frente a “iguaria” que tínhamos pedido.

O veredito final desta nossa primeira refeição por terras da Indochina e que custou o preço irreal de 110.000 dongs, sim, 4 euros para duas pessoas… comemos quase tudo (os enchidos só provamos), não tivemos uma intoxicação alimentar e foi uma experiencia tão pura e genuína que só por isso valeu a pena!

Durante o restante tempo livre que tivemos pela cidade, nessa tarde e noite e após o regresso da Baia de Halong para onde fomos no dia seguinte deixamo-nos perder pelas suas ruas até as pernas não aguentarem mais!

Visitamos o “French Quarter” com as suas lojas de marcas internacionais, os seus edifícios coloniais franceses e a catedral de Notre Dame.

Regressamos mais que uma vez ao Lago Hoan Kiem, percorrendo a Ponte Vermelha Huc, ex libris da capital vietnamita e que proporciona uma lufada de ar fresco para quem sai do apertado e abafado Old Quarter.

E por lá assistimos ao show de marionetas na água acompanhado por cantores ao vivo que interpretavam musicas populares.

Ingresso no Teatro aquático de marionetas Thang Long – https://www.getyourguide.com/hanoi-l205/thang-long-water-puppet-theatre-skip-the-line-entry-ticket

Jantamos em plena “street food” nos seus pequenos bancos de plástico rentes ao chão com Hanoi a acontecer à nossa volta.

Provamos o delicioso café com ovo (“ca phê trung”) de que fiquei fã número 1 pois ao contrário do que à primeira vista possa parecer, ou seja, que não combina, a verdade é que se trata de uma fusão improvável mas que funciona em pleno: é feita uma gemada, doce que é misturada com i café acabadinho de tirar ao que é adicionado no topo as claras, batidas em castelo e que depois suavemente se dissolvem no liquido. Juro que é de “chorar por mais”!

E, acima de tudo, treinamos o nosso “passatempo” preferido, atravessar qualquer rua da cidade…

Com mais de cinco milhões de motas a circular na cidade, já por várias vezes referi, que o transito por lá era o verdadeiro caos! As motas andam literalmente por todo o lado, passeios, estabelecimentos comerciais, contra-mão, tudo é permitido! O caminho com a distância mais curta é sempre o que é feito, independentemente do que está à volta, e sempre, sempre a buzinar, claro! Alem disso conceitos como o de passadeiras ou peões são completamente inexistentes por estas bandas e, assim sendo, está bom de ver que atravessar a rua torna-se um verdadeiro desafio…

O truque é ir devagar mas de forma decidida, nunca parar, correr e muito menos voltar para trás… “eles” desviam-se…algo suicida, com uns sustos pelo meio, mas funciona!!!! No fundo há uma desorganização organizada, um descontrolo controlado, um caos “delicioso”. Todos sabem como o sistema funciona, todos seguem as “regras”, aparentemente, sem acidentes ou atropelamentos e todos chegam ao seu destino! A melhor aventura radical de sempre…

Para terminar fomos ao encontro da linha de comboio mais bizarra que alguma vez vimos…serpenteando entre as modestas casas e mesmo à face destas mete medo só de pensar! Aguardamos na penumbra a passagem de um dos dois comboios que por ali passam diariamente e à hora “marcada” lá surgiu ele a uma velocidade estonteante para o local que era. Éramos os únicos turistas a assistir à sua passagem, talvez porque o fizemos ao fim do dia, já a noite tinha caído mas ficamos surpreendidos por só ali estarmos nós pois é uma experiência a não perder!

⭐⭐⭐⭐⭐

Todos os textos são da autoria de Olga Samões e todas as fotografias deste blog são da autoria de José Carlos Lacerda, exceto onde devidamente identificado. Proibida a reprodução de quaisquer textos e/ou imagens sem autorização prévia dos autores

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