Marrocos, 4ª e 5ª étapa – Fez / Errachidia / Merzouga

4ª étapa – Fez/Errachidia

O amanhecer neste primeiro dia de Ramadão trouxe consigo logo alterações ao nível do serviço de pequeno almoço do hotel…ao contrário do dia anterior em que tivemos acesso ao um recheado buffet no restaurante principal, quando no aproximamos do mesmo neste dia as mesas estavam vazias!

Ouvíamos conversar na cozinha mesmo ali ao lado e questionávamos a possibilidade de aplicarem o Ramadão aos turistas…nada provável até porque tínhamos selecionado todos os hotéis com pequeno almoço incluído no preço. E de facto após breves instantes um empregado dirigiu-se à sala perguntado-nos o que pretendíamos comer e beber…Apercebemo-nos então que nos serviriam o pequeno almoço mas duma forma mais regrada e discreta.

Temendo já o que nos esperaria no resto da nossa estadia, fizemo-nos à estrada, rumo ao deserto…ainda lá não chegaríamos neste etapa pois preocupados com o estado das estradas e outras vicissitudes inerentes a esta zona, decidimos dividir em dois o percurso que nos levaria de Fez até Merzouga, pernoitando em Errachidia.

Percorremos assim cerca de 350 km, primeiro pela N8 em direção a Ifrane, situada na vertente mais ocidental do Médio Atlas, a dois mil metros de altura sobre o nível do mar.

Até lá a estrada tem uma qualidade invejável, muito bem sinalizada e com um piso novo e bem tratado apesar de sinuosidade característica da montanha, isto porque se trata do local de férias preferido da família real onde podemos encontrar o palácio muito bem guardado no meio das suas largas avenidas em impecável estado de limpeza.

Na verdade, esta pequena população prima pelos seus jardins e zonas verde e por uma arquitectura típica de una cidade alpina… um estilo que faz com que nos sintamos em Marrocos numa estância de sky suíça!

Depois e sempre a altitudes consideráveis que iam amenizando a temperatura seguimos pela N13 até Midelt, uma pequena cidade sem muitos atrativos cujo charme está apenas na localização, entre o Atlas médio e o Grande Atlas.

Ladeados de montanhas à esquerda e à direita intercaladas aqui e acolá por vales coloridos de um verde vivo que iam quebrando a monotonia do espaço íamos viajando debaixo de um céu azul, sem uma única nuvem, que nos deixava sem teto para combater o sol intenso. O casario, agora maioritariamente feito de de lama e barro, refletia ainda a luz e aridez do ambiente.

Sob as ombreiras das portas ou á sombra dum árvore multiplicavam-se anciães de barbas e vestes brancas a ver quem passa. O ritmo abrandava quando atravessamos os povoados. Perguntávamo-nos se seria sempre assim ou se era apenas reflexo do primeiro dia de Ramadão … Vimos também pelo caminho muitas crianças que carregavam a poeira da estrada, encardida nas roupas e a irreverência da infância estampada na cara. Todos observavam a nossa passagem e acenavam-nos dando-nos as boas vindas e partidas, sem nunca nos terem conhecido na vida…

Estávamos, entretanto em pleno Alto Atlas quando nos deparamos com um vale que ía progressivamente afunilando e as encostas das montanhas se tornavam mais íngremes. À atmosfera alaranjada e esmagadora, juntavam-se umas quantas curvas em zig-zag. Ficámos siderados pela paisagem, como se fossemos formigas no curso de um gigante. Tínhamos finalmente chegado ao desfiladeiro prometido… o desfiladeiro do Ziz!

Estávamos já a poucos quilómetros do fim desta etapa e até ali sempre tínhamos passado “sem mácula” pelas inúmeras “operações STOP” que estão montadas à entrada e saída das aldeias que vão surgindo pelo caminho. Nelas os polícias e militares controlam a velocidade dos carros através de radares portáteis, que os próprios carregam de braço estendido, uns metros antes das barreiras onde nos obrigam a parar e seguir viagem.

Não nos apercebemos logo que a paragem era mesmo obrigatória até porque normalmente seguia-mos sozinhos na estrada e éramos facilmente avistados ao longe e prontamente mandados seguir…Ficamos depois a saber que se não parássemos estávamos sujeitos a multa só por causa disso! A verdade é que começamos a ver que os carros que seguiam á nossa frente paravam mesmo no local onde estava sinalizada o controle policial e começamos a fazer o mesmo.

Neste dia, já a chegar ao nosso destino, íamos tendo o primeiro percalço…uma ultrapassagem num local de linha continua! A visibilidade da estrada era boa e o camião que ultrapassávamos ía a tão reduzida velocidade que era demasiado tentador não cometer tal infração… Só que, por azar, estava mesmo ali um dispositivo policial que não vimos e assim presenciou a primeira vez que se infringíamos as regras de transito! Escapamos apenas com um franzir de testa e um dedo indicador acusador da infração…

Mas nesta viagem até Errachidia que já ía em mais de cinco horas, nem tudo corria assim tão bem… nem chegamos a ir mesmo ao centro desta cidade construída pelos franceses, atualmente sede do principal aquartelamento militar no sudeste de Marrocos até porque quando passávamos ao lado pudemos constatar que quase nada a distingue de um aglomerado urbano sem grande interesse.

Por um lado, um estranho barulho no motor da mota fazia-nos temer um problema mecânico.

Por outro lado, tínhamos atravessado uma zona de aldeias mais remotas que, em condições “normais” já não teriam muita oferta de comida o que aliado ao jejum do Ramadão fazia com que os “restaurantes” estivessem fechados durante o dia. A nossa esperança era quando chegássemos ao hotel, por definição um local habituado a receber turistas, este nos servisse o almoço ou pelo menos, e dado o adiantado da hora, disponibilizasse uns snacks para podermos comer.

Mas tal acabou por não acontecer… tínhamos escolhido para pernoitar um hotel chamado “Le Petit Riad” a poucos quilómetros do centro, na estrada nacional N10, muito acolhedor, com otimas instalações e uma tentadora piscina para nos refrescarmos dos cerca de 38 graus com que fomos brindados em Errachidia mas que dada a sua administração “familiar” contava apenas com um funcionário que era simultaneamente o dono do local, o rececionista, o empregado de mesa e provavelmente o cozinheiro! Ou seja, quando “a medo” lhe perguntamos onde poderíamos comer alguma coisa uma vez que sabíamos que estávamos em pleno Ramadão, na esperança que nos respondesse que por lá preparariam algo, a resposta foi que possivelmente poderíamos comprar algo para comer nos pequenos mini-mercados existentes no centro de Errachidia ali próxima… Ora, bolachas por bolachas, tínhamos as nossas e com estas nos bastamos até ao por do sol! Um jejum forçado…mas que nos fez apreciar de outra forma a sopa marroquina com um péssimo aspeto que pudemos comer já após o por do sol… logo seguida da típica “Tajine” , um cozido ou guisado de legumes e carne servido numa panela feita com barro cozido com uma tampa característica em formato de cone concebida de forma que todo o vapor condensado volte para o fundo da panela. Pudemos assim viver na primeira pessoa o nosso Iftar ou Ftour (como é chamada a primeira refeição que quebra o jejum) logo no primeiro dia de Ramadão!

Foi neste dia que conhecemos o Bob e o seu amigo, ingleses que como nós andavam a viajar de mota por Marrocos com uma rota distinta mas que fez com que nos cruzássemos neste hotel. O primeiro contacto deveu-se ao tal problema mecânico que a nossa mota vinha a acusar fazendo um barulho estranho quando em aceleração. Aproveitando o facto de também serem motards pediu-se-lhes a sua opinião sobre esta nossa preocupação que nos levava a ponderar sobre se havíamos ou não de continuar a viagem… após umas breves voltas e umas quantas aceleradelas acabamos por tentar desvalorizar o tal barulho e optar por seguir até onde desse… é que ali, já tão perto do deserto, o momento tão esperado da viagem, era “morrer na praia”!

Foi também com eles que partilhamos a já referida refeição pois éramos os únicos hospedes daquele hotel e todos estávamos em Ramadão forçado… Partilhamos também contactos para uma posterior troca de impressões sobre os locais por onde iríamos passar tendo sido de especial importância todas as informações que cuidadosamente o Bob teve a gentileza de nos enviar sobre o estado das estradas por onde iam passando antes de nós pois não fariam o desvio a Merzouga. 

5ª étapa – Errachidia / Merzouga

Eram apenas 150 km aqueles que nos separavam daquele que era o tão esperado contacto com algo que nenhum de nós antes tinha visto… o Sahara!

O amanhecer trouxe de volta o calor desarmante já característico do deserto anunciando a dureza da etapa que tínhamos pela frente…

Sempre por estrada em asfalto, cada vez mais estreita mas em perfeitas condições chegamos a Erfoud onde nos surgiu a primeira dificuldade: um desvio cortava a estrada principal e fazia-nos avançar por estradas secundárias estando o GPS sempre e informar que o sentido estava errado… havia então que tentar passar pela estrada em obras ignorando as placas que cortavam o trânsito! E aí se deu o primeiro contacto com a areia, superado com distinção!

Saídos da povoação a estrada começou a entrar pelo deserto. A terra tingiu-se de cinzento… o que víamos não era bem aquilo que estávamos à espera! Era um deserto negro onde um pó preto e pequenas pedras negras cobriam o chão até onde a vista alcançava…

Já não restavam mais gotas no fundo das garrafas de água que tínhamos trazido connosco e era perceptível a desidratação que tomava conta de nós, pouco a pouco.

Até que ao longe avistamos as primeiras dunas de areia coloridas de um laranja impressionante. Isto sim era a nossa ideia do deserto! Nunca a paisagem marroquina nos tinha cativado desta maneira. O entusiasmo era tal que até a sede passou e nem sentíamos os 40 graus sufocantes que já marcava o termómetro da mota!

Mas a tudo isto começou a juntar-se um vento seco, quente, vindo das profundezas das dunas de areia que nos começavam a ladear e que queimava as nossas faces…se com o capacete fechado estava um calor insuportável, com ele aberto era impossível viajar!

Já tínhamos passado Rissani e seguíamos agora pela N13 em direção a Merzouga e íamos passando as várias placas na estrada que indicavam os diversos alojamentos da zona por trilhas que não conseguíamos distinguir do resto do terreno feito de pedra/gravilha e areia. E conforme nos tinha sido previamente informado lá apareceu no lado esquerdo a placa indicativa do “Aubergue du Sud”. No entanto não nos foi aconselhado seguir por esta pista maioritariamente de areia durante 8 km por ser demasiado “todo o terreno” para o tipo de mota em que seguíamos. Deviríamos antes ir quase até á entrada de Merzouga e aí virar para trás junto a umas bombas de gasolina e seguir por uma estrada primeiro de alcatrão e depois em gravilha compactada que nos levaria até lá.

Estava bom de ver que com indicações tão vagas no terreno não ía ser nada fácil encontrarmos o caminho certo.

A verdade é que a poucos quilómetros de Merzouga lá avistamos a bomba de gasolina mas junto á mesma não conseguíamos ver qualquer estrada de alcatrão por onde virar… Pusemos então a hipótese de haver mais que uma bomba e como tal seguimos…instantes depois entrávamos na povoação.

Era meio dia, não se via vivalma…parecia uma aldeia fantasma! Esta aldeia mistura-se ela própria com as dunas de Erg Chebbi que a rodeiam, toda ela é construída com adobe que consiste numa construção misturando palha, terra barrenta, areia e nalguns casos já cimento e tijolo de barro. Mas por lá não nos detivemos pois o nosso GPS, previamente carregado com as condenadas do Auberge, constantemente nos mandava virar para trás e acabamos por fazer o retrocesso pelo meio do nada, onde supostamente marcava uma estrada, mas que à nossa vista era apenas mais um grande terreno de gravilha e areia. Com grande dificuldade seguimos a seta de direção e acabamos por regressar á estrada por onde tínhamos vindo fazendo o percurso de novo até á bomba de gasolina.

Continuávamos sem ver a bendita estrada que nos levaria para o hotel. E assim sendo resolvemos tentar “obedecer” ao GPS que nos indicava uma mudança de direção uns quilómetros mais à frente. Ficamos foi incrédulos com o local onde teríamos que virar para nos embrenharmos no deserto…pouco ou nada diferenciava a tal pista do resto da paisagem! E nada se via ao fundo da mesma que não fossem dunas e mais dunas de areia…Mas decidimos mesmo assim virar. Acho que era já o calor e a desidratação a condicionar o nosso cérebro! Imediatamente deu para perceber que a gravilha era só uma pequena camada que tapava superficialmente a areia existente. Avançamos de forma cada vez mais instável ainda durante umas centenas de metros mas acabamos por desistir e decidir regressar á estrada principal…primeiro porque a pista era cada vez mais invisível dando-nos muito pouca segurança por onde deveríamos seguir e ainda faltavam bastantes quilómetros segundo o GPS até ás coordenadas finais depois porque em face da areia que cada vez era em maior quantidade a nossa queda era iminente… Saí mesmo da mota para tentar facilitar a viagem de regresso á estrada mas acabei por ter que regressar pois era impossível caminhar àquela hora debaixo daquele sol abrasador e respirar aquele ar seco e sufocante que ultrapassava os 42 graus de temperatura.

Frustrada aquela tentativa resolvemos ir até á bomba de gasolina para pedir ajuda… a ideia seria arranjar um “guia” que nos levasse até ao Auberge do Sud pelo melhor caminho possível. E com alguma sorte (e promessa de alguns dirahms!) conseguimos convencer um marroquino que por lá esperava um grupo para levar para um outro alojamento a acompanhar-nos nesta missão impossível deserto dentro… Seguimos pela tal estrada existente mesmo junto á bomba como nos tinha sido indicado mas que ainda não tínhamos vislumbrado de tal forma era igual a tudo o resto … e os primeiros quilómetros até que foram relativamente fáceis! Seguíamos lentamente atrás do marroquino que entretanto tinha montado a sua motoreta e descontraidamente progredia por aquele instável terreno e nos dava grandes avanços parando de seguida para nos esperar…E de repente, não havia mais “estrada”, avançávamos pelo meio das dunas pisando pura areia, seguindo o trilho da motoreta do nosso “guia” que, em zig-zags ía escolhendo o melhor percurso!

Os nossos corações aceleravam tanta era a adrenalina resultante de a qualquer momento podermos cair… e foram várias as vezes que sentimos tal “ameaça” até que foi inevitável! Mesmo junto ao nosso destino, diria mesmo a umas dezenas de metros de terminarmos aquela louca viagem, o deserto venceu! Uma queda sem consequências na areia fofa… tudo filmado na GoPro para a posteridade…

O alojamento escolhido “Auberge du Sud” situava-se mesmo na orla das dunas de Erg Chebbi e visto ao longe parecia uma fortaleza, murado a toda a volta, envolvendo as diversas casinhas térreas onde se situavam os vários quartos. O encanto pitoresco do local descobre-se já dentro de portas: na receção recheada de elementos decorativos multicolores alusivos ao deserto, nos seus pátios interiores e na sua fenomenal piscina com a melhor vista para as dunas que alguma vez se possa imaginar…

Link Hotel – https://www.booking.com/hotel/ma/riad-cafe-du-sud.pt

O calor era bastante e a sede insuportável. Estávamos exaustos e era urgente recarregar baterias! Temíamos que mais uma vez não nos servissem almoço…mas a oferta de um chá de menta mal chegamos afastou-nos tal receio. Apesar de estar a escaldar a verdade é que retemperou as nossas forças. E foi-nos prometido para dali a pouco um almoço típico da zona. Delicioso, por sinal!

Já instalados num quarto típico e acolhedor mas sem ter o ar condicionado a funcionar, nem quisemos ir questionar esta situação… era urgente mergulhar naquela piscina que parecia saída de um conto de fadas…

Após dois ou três mergulhos ficamos como novos e pudemos finalmente relaxar e apreciar aquele verdadeiro oásis no deserto!

E por lá fizemos amigos! Conhecemos dois brasileiros, a Elizabeth e o Fernando, um italiano, o Casimiro e claro, um português, o Zé Maria !!!! Tinham chegado no dia anterior pela noite e aproveitavam como nós para se refrescar na piscina… Por eles tomamos conhecimento da possibilidade de nessa mesma noite ir para o coração do deserto e por lá pernoitar num acampamento berbere. Essa ideia agradou-nos e fomos logo saber se os poderíamos acompanhar em tal excursão.

A partida ficou marcada para as 7 da tarde… Até lá ainda teríamos tempo para desfrutar mais um pouco da piscina e mesmo de ir pisar as areias escaldantes do deserto mesmo ali á porta do Aubergue… com as dunas de Er Chebbi no horizonte num silencio sepulcral… um cenário perfeito!

Rating: 5 out of 5.

Todos os textos são da autoria de Olga Samões e todas as fotografias deste blog são da autoria de José Carlos Lacerda, exceto onde devidamente identificado. Proibida a reprodução de quaisquer textos e/ou imagens sem autorização prévia dos autores

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